O que é Cálculo Numérico
Quanto é a raiz quadrada de 2? Onde um planeta vai estar no mês que vem? Vai chover amanhã? Para quase todas as perguntas importantes da ciência não existe uma fórmula que dê a resposta exata. O Cálculo Numérico é a arte de chegar tão perto quanto for preciso, usando só contas simples, e de saber exatamente quão perto chegamos.
O matemático Lloyd Nick Trefethen, da Universidade de Oxford, resumiu a área numa frase: Cálculo Numérico (ou análise numérica) é o estudo dos algoritmos para os problemas da matemática contínua. [49] “Contínua” quer dizer tudo o que envolve números reais, curvas, áreas, velocidades e mudanças; “algoritmo” é uma receita com um número finito de passos. O desafio é trocar algo infinito, como as infinitas casas decimais de √2, por uma receita que termina.
Três ideias que atravessam toda a história
- Aproximar: em vez de buscar o valor exato, buscamos um valor bom o bastante. Um engenheiro não precisa de √2 com um milhão de casas; precisa de umas poucas, certas.
- Iterar: repetir uma conta simples muitas vezes, cada vez chegando mais perto. Quase todos os métodos deste artigo são repetições inteligentes.
- Controlar o erro: saber quanto a resposta pode estar errada. Um resultado sem estimativa de erro é só um palpite com muitas casas decimais.
Neste artigo, vamos seguir essas três ideias por quatro mil anos: das tabuletas de argila da Babilônia aos supercomputadores e à inteligência artificial. Em cada época, veremos quem foram os pensadores, como era o mundo, qual problema eles queriam resolver, a teoria explicada passo a passo e exemplos de uso.
As origens em ordem cronológica
A linha do tempo abaixo mostra as dez paradas da nossa viagem. As datas não estão em escala: entre a Babilônia e Arquimedes passaram-se mais de 1.500 anos; entre o ENIAC e hoje, menos de 80.
Repare num padrão: cada época herdou as ferramentas da anterior. Newton redescobriu o método babilônico; a eliminação de Gauss já estava num livro chinês de dois mil anos antes; e os computadores eletrônicos só fizeram, muito mais depressa, o que calculistas humanos já faziam à mão.
1. Babilônia e Heron: a raiz quadrada
Quem foram
Não sabemos o nome do escriba babilônico que, por volta de 1800 a.C., gravou numa pequena tabuleta de argila a melhor aproximação de √2 do mundo antigo. A tabuleta, chamada YBC 7289, está hoje na coleção babilônica da Universidade Yale, nos Estados Unidos. Ela provavelmente era um exercício escolar: um aluno copiando o que o professor ensinava. [14]
Quase dois mil anos depois, Heron de Alexandria (viveu por volta do ano 60 d.C.) descreveu com clareza o mesmo método no livro Métrica. Heron era engenheiro e inventor: projetou autômatos, um órgão movido a água e a eolípila, uma espécie de máquina a vapor de brinquedo. [33]

Foto: Yale Peabody Museum · CC0

Retrato imaginado · domínio público
O mundo naquela época
| Data | Onde eles viviam | No resto do mundo |
|---|---|---|
| c. 1792–1750 a.C. | Reinado de Hamurábi na Babilônia, na atual Iraque; o famoso código de leis é de cerca de 1754 a.C. | No Egito, Médio Império; na Europa, as últimas fases de Stonehenge. |
| c. 1800–1600 a.C. | Escolas de escribas ensinam matemática em tabuletas de argila, em base 60. | Na China, surgem as primeiras cidades da cultura Erlitou, antes da dinastia Shang. |
| c. 60 d.C. | Heron trabalha em Alexandria, no Egito, então parte do Império Romano. | Em Roma, o grande incêndio de 64 d.C.; na China, a dinastia Han; em 105 d.C., Cai Lun aperfeiçoa o papel. |
O problema
Os babilônios eram ótimos agrimensores: mediam terrenos, canais de irrigação e construções. Uma pergunta aparece o tempo todo: quanto mede a diagonal de um quadrado? Pelo que hoje chamamos de teorema de Pitágoras, a diagonal de um quadrado de lado 1 é √2. O problema é que √2 não é uma fração: nenhuma divisão de números inteiros dá exatamente esse valor. Suas casas decimais nunca terminam nem se repetem.
Os babilônios escreviam números na base 60 (é dela que vêm os 60 minutos da hora e os 360 graus do círculo). Na tabuleta aparece 1;24,51,10, que significa 1 + 24/60 + 51/3.600 + 10/216.000 = 1,41421296. O valor real é 1,41421356: o erro é menor que um milionésimo. [14]
A teoria, passo a passo
Ninguém sabe ao certo como os babilônios chegaram a esse número, mas o método mais aceito é o que Heron descreveu. A ideia é geométrica e muito bonita. Pense num retângulo com área 2. Se ele fosse um quadrado, o lado seria exatamente √2. Então vamos “quadradear” o retângulo aos poucos:
- Comece com um retângulo de lados 1 e 2 (área 2, mas nada quadrado).
- Um lado é pequeno demais e o outro, grande demais. Faça a média: (1 + 2) ÷ 2 = 1,5. Esse é o novo lado.
- Para manter a área 2, o outro lado tem de ser 2 ÷ 1,5 = 1,333.
- Repita: média de 1,5 e 1,333 dá 1,4167. E assim por diante.
Em forma de receita, para calcular √N:
novo chute = (chute + N ÷ chute) ÷ 2 Por que funciona? se chute < √N, então N ÷ chute > √N se chute > √N, então N ÷ chute < √N → a resposta está sempre ENTRE os dois, e a média fica mais perto
O mais impressionante é a velocidade: a cada passo, a quantidade de casas decimais certas quase dobra. Os matemáticos chamam isso de convergência quadrática, e vamos reencontrá-la com Newton, 3.400 anos depois.
Exemplos de uso
No exemplo de Heron, ele queria a área de um triângulo e precisou de √720. Como 27 × 27 = 729, bem perto de 720, ele começou com 27. Um único passo deu 26 5/6 = 26,8333, quando o valor real é 26,8328. [33] Heron ainda explicou que, se quisermos mais precisão, basta repetir com o novo valor. Essa frase é, talvez, a primeira descrição escrita de um método iterativo.
E isso não é só história: variações desse método ainda são usadas por calculadoras, bibliotecas de software e processadores para calcular raízes quadradas, porque ele é simples, rápido e só usa soma e divisão.
2. Arquimedes: cercando o número π
Quem foi
Arquimedes de Siracusa (c. 287–212 a.C.) é considerado um dos maiores matemáticos de todos os tempos. Viveu na Sicília, que então era uma colônia grega. Estudou a alavanca (“Dê-me um ponto de apoio e moverei o mundo”), o empuxo dos líquidos (a famosa história do “Eureka!”) e inventou máquinas de guerra para defender a cidade. Morreu em 212 a.C., quando os romanos invadiram Siracusa; segundo a tradição, um soldado o matou enquanto ele desenhava figuras na areia. [29]

Domenico Fetti, 1620 · domínio público
O mundo naquela época
| Data | Onde ele vivia | No resto do mundo |
|---|---|---|
| c. 300 a.C. | A Biblioteca de Alexandria reúne os sábios do mundo grego; Euclides escreve os Elementos. | Na Índia, o Império Máurya; mais tarde, o imperador Ashoka (c. 268–232 a.C.). |
| c. 240 a.C. | Eratóstenes, amigo e correspondente de Arquimedes, mede a circunferência da Terra. | Na China, Qin Shi Huang unifica o país em 221 a.C. e começa a Grande Muralha. |
| 218–201 a.C. | Segunda Guerra Púnica, entre Roma e Cartago; Siracusa fica do lado de Cartago e cai em 212 a.C. | Aníbal atravessa os Alpes com elefantes em 218 a.C. |
O problema
Todo círculo, pequeno ou grande, tem a mesma proporção entre a volta (a circunferência) e a largura (o diâmetro). Esse número é o π. Ele é necessário para calcular rodas, colunas, cisternas, áreas de terrenos redondos e órbitas de astros. Mas medir com uma corda dá, no máximo, duas casas certas. E π, como √2, tem infinitas casas decimais que não se repetem.
A teoria, passo a passo
A ideia genial de Arquimedes, no livro A medida do círculo, foi espremer o círculo entre duas figuras que sabemos medir: polígonos. [29]
- Desenhe um hexágono (6 lados) dentro do círculo. O perímetro dele é menor que a circunferência.
- Desenhe outro hexágono por fora, encostando no círculo. O perímetro dele é maior.
- Então π está entre os dois: 3,000 < π < 3,464.
- Agora dobre o número de lados: 12, 24, 48, 96. Os polígonos grudam cada vez mais no círculo, e o intervalo aperta.
O truque não era desenhar: era calcular. Arquimedes descobriu uma regra para passar do polígono de n lados para o de 2n lados usando só raízes quadradas e frações, e as raízes ele calculava com aproximações como a babilônica. Essa é a primeira vez na história em que alguém dá, ao mesmo tempo, uma aproximação e uma garantia de erro: π está com certeza entre esses dois números.
perímetro de dentro < circunferência < perímetro de fora
(n lados) (n lados)
diâmetro = 1 → 3,1410 < π < 3,1427 (n = 96)
Exemplos de uso
Com 96 lados, Arquimedes chegou a 3 10/71 < π < 3 1/7, ou seja, 3,1408 < π < 3,1429. Ele arredondou sempre “para o lado seguro”, alargando um pouquinho o intervalo, para que a garantia continuasse valendo. A aproximação 22/7 (= 3 1/7) foi usada por engenheiros e artesãos durante quase dois mil anos.
O mesmo espírito vale hoje: quando um computador calcula a área sob uma curva (a integral numérica), ele troca a curva por muitos pedacinhos retos ou retângulos, exatamente como Arquimedes trocou o círculo por polígonos.
3. China: os Nove Capítulos e os sistemas lineares
Quem foram
Os Nove Capítulos da Arte Matemática (Jiuzhang Suanshu) são um livro chinês de 246 problemas práticos, reunidos por vários autores entre os séculos X e I a.C. e fechados por volta do século I d.C. Em 263 d.C., o matemático Liu Hui, do reino de Wei, escreveu comentários que explicam e provam os métodos do livro. [37] [35] Liu Hui também calculou π com polígonos, como Arquimedes, chegando a 3,1416; dois séculos depois, Zu Chongzhi (429–500) mostrou que 3,1415926 < π < 3,1415927.
Não existe retrato autêntico de Liu Hui. A imagem abaixo é uma página de uma edição antiga dos Nove Capítulos; na coluna da direita, lê-se “魏 劉徽 注”: “comentários de Liu Hui, de Wei”.

Edição da dinastia Qing · domínio público
O mundo naquela época
| Data | Onde eles viviam | No resto do mundo |
|---|---|---|
| 206 a.C.–220 d.C. | Dinastia Han: burocracia enorme, impostos em grãos, grandes obras de irrigação; a Rota da Seda liga a China ao Ocidente. | Roma passa de república a império (27 a.C.); nasce e se espalha o cristianismo. |
| 220–280 | Período dos Três Reinos; Liu Hui escreve seus comentários em 263, no reino de Wei. | Roma vive a “crise do século III”; na Pérsia, surge o Império Sassânida (224). |
| c. 250 | Contas feitas com varetas numa tábua; números negativos representados por varetas de outra cor. | Nas Américas, começa o período clássico maia, com sua matemática em base 20 e o uso do zero. |
O problema
Um império que cobra impostos em grãos precisa resolver problemas com várias quantidades desconhecidas ao mesmo tempo. O primeiro problema do capítulo 8 é famoso: três tipos de colheita (boa, média e ruim), três combinações de feixes e o total de grãos de cada combinação. Quanto rende um feixe de cada tipo? [37]
Hoje escreveríamos isso como um sistema linear de três equações:
3a + 2m + 1b = 39 2a + 3m + 1b = 34 1a + 2m + 3b = 26 (a = alta, m = média, b = baixa)
A teoria, passo a passo
O método chinês, chamado fangcheng (“arranjo retangular”), é exatamente o que hoje chamamos de eliminação de Gauss, quase dois mil anos antes de Gauss. A ideia é simples: se você multiplicar uma equação inteira por um número, ou subtrair uma equação de outra, a resposta não muda. Então usamos essas operações para ir zerando números até sobrar uma equação com uma incógnita só.
- Montar a tabela: escreva só os números, uma linha por equação.
- Zerar a primeira coluna: combine as linhas para que a primeira incógnita desapareça das linhas 2 e 3.
- Zerar mais um: combine as linhas 2 e 3 para que a segunda incógnita desapareça da linha 3. A tabela vira uma “escada”.
- Voltar resolvendo: a última linha tem uma incógnita só. Resolva, suba para a linha de cima, e assim por diante.
Um detalhe notável: para fazer essas subtrações, às vezes aparecem números negativos. Os Nove Capítulos estão entre os primeiros textos do mundo a dar regras para somar e subtrair números negativos, representados por varetas pretas, enquanto os positivos eram vermelhos. [37]
Exemplos de uso
Sistemas lineares estão entre os problemas que os computadores mais resolvem no mundo. Quando um engenheiro calcula se uma ponte aguenta o peso, ele divide a estrutura em milhões de pedacinhos e escreve uma equação para cada um. Quando um jogo 3D calcula luz e sombra, ou quando uma inteligência artificial é treinada, bilhões de contas desse tipo acontecem por segundo. O ranking dos supercomputadores mais rápidos do mundo, o TOP500, mede justamente quão depressa cada máquina resolve um sistema linear gigante. [47]
4. Índia: o zero, os senos e as séries infinitas
Quem foram
A Índia deu ao Cálculo Numérico a sua ferramenta mais básica: o sistema decimal posicional com zero, em que o valor de um algarismo depende da posição (o 3 de 300 vale cem vezes o 3 de 3). Sem ele, as contas longas deste artigo seriam quase impossíveis. Um dos registros mais antigos do zero como símbolo está no manuscrito Bakhshali, um texto de matemática em casca de bétula encontrado em 1881 no atual Paquistão; algumas folhas foram datadas por carbono-14 entre os séculos III e IV, mas a data do conteúdo ainda é debatida. [4] O manuscrito traz até uma fórmula para raízes quadradas equivalente a dois passos do método babilônico. [39]
Aryabhata (476–550) escreveu em 499, aos 23 anos, o Aryabhatiya, um livro de astronomia em versos que traz uma tabela de senos e o valor π ≈ 3,1416. [30] Brahmagupta (598–c. 668) deu as primeiras regras completas para contas com zero e números negativos (628) e, em 665, uma fórmula de interpolação de segunda ordem. [31] E Madhava de Sangamagrama (c. 1340–1425), fundador da escola de Kerala, no sul da Índia, descobriu séries infinitas para o seno, o cosseno e o π cerca de 250 anos antes de Newton, Gregory e Leibniz. Os livros de Madhava se perderam; conhecemos suas ideias pelos alunos, como Nilakantha (Tantrasangraha, 1501) e Jyeshthadeva (Yuktibhasa, c. 1530, escrito em malaiala). [36] [41]

Estátua no IUCAA, Pune (não há retrato autêntico) · domínio público

Biblioteca Bodleiana, Oxford · domínio público

Expõe as séries de Madhava · domínio público
O mundo naquela época
| Data | Onde eles viviam | No resto do mundo |
|---|---|---|
| 499 | Fim da “era de ouro” do Império Gupta; Aryabhata escreve em Kusumapura, perto da atual Patna. | O Império Romano do Ocidente caiu em 476; na China, Zu Chongzhi morre em 500. |
| 628–665 | Brahmagupta trabalha em Bhillamala, no atual Rajastão; por volta de 773, textos astronômicos indianos chegam a Bagdá e são traduzidos para o árabe. | Surge o Islã (a Hégira é em 622); na China, começa a dinastia Tang (618). |
| c. 1340–1530 | A escola de Kerala floresce numa costa rica em especiarias, com Madhava, Nilakantha e Jyeshthadeva. | Vasco da Gama chega a Calicute, em Kerala, em 1498; a frota de Cabral, que chegou ao Brasil em 1500, seguia justamente para Calicute. |
O problema
A astronomia indiana, usada para calendários, festivais e previsão de eclipses, dependia de tabelas de senos. Aryabhata dividiu um quarto de círculo em 24 arcos de 3°45’ e precisava do “seno” de cada um, a meia-corda que os indianos chamavam de jyā, “corda de arco”. Curiosidade: jyā virou jība em árabe, foi mal lida como jaib (“dobra”) e traduzida para o latim como sinus, que deu “seno”. Além dos 24 valores, os astrônomos precisavam dos senos entre eles, e de um π preciso.
Um detalhe esperto: Aryabhata usou um círculo de raio 3438. Como a volta inteira tem 21.600 minutos de arco e 21.600 ÷ 2π ≈ 3438, nesse círculo um arco pequeno e o seu seno medem quase o mesmo número. E, ao dar π ≈ 62.832 ÷ 20.000 = 3,1416, Aryabhata escreveu que o valor era āsanna, “aproximado”: ele sabia que não era exato. [30]
A teoria, passo a passo
1. Construir a tabela somando diferenças. Em vez de calcular cada seno do zero, Aryabhata calculou as diferenças entre senos vizinhos. A primeira é 225. As outras vão encolhendo, e a regra diz quanto: cada diferença nova é a anterior menos um pedacinho proporcional à soma dos senos já obtidos. Quanto maior o seno, mais a curva “entorta”, e mais a diferença diminui.
diferença nova = diferença anterior − (soma dos senos até aqui) ÷ 233,5 225 225 − 225 ÷ 233,5 ≈ 224 → seno 2 = 225 + 224 = 449 224 − 449 ÷ 233,5 ≈ 222 → seno 3 = 449 + 222 = 671
No texto de Aryabhata o divisor é 225; com o divisor exato, cerca de 233,5, a regra reproduz a tabela quase perfeitamente. Em linguagem moderna, ele usou o fato de que a diferença das diferenças do seno é proporcional ao próprio seno. É a mesma ideia de diferenças finitas que Richardson aplicaria à previsão do tempo 1.400 anos depois. [39]
2. Interpolar com curvatura. Para achar um seno entre dois valores da tabela, o mais simples é ligar os pontos com uma reta (interpolação linear). Brahmagupta, em 665, fez melhor: usou também a diferença anterior para medir quanto a curva entorta e corrigir a reta. É uma interpolação de segunda ordem, cerca de mil anos antes das fórmulas de Newton e Stirling. [31]
seno(x₀ + t·h) ≈ seno(x₀) + t × (D₋ + D₊) ÷ 2 + t² × (D₊ − D₋) ÷ 2 D₋ = diferença anterior, D₊ = diferença seguinte, t = fração do passo (0 a 1)
3. Séries infinitas com correção. Madhava descobriu que π pode ser escrito como uma soma sem fim: π/4 = 1 − 1/3 + 1/5 − 1/7 + … O problema é que essa soma chega em π muito devagar: com 10 termos, ainda dá 3,04. A grande sacada de Madhava foi estimar o pedaço que falta quando se para no meio, e somá-lo como um termo de correção. Isso é, literalmente, uma estimativa do erro de truncamento, uma das ideias centrais do Cálculo Numérico. [41]
Exemplos de uso
Somando as diferenças, os 24 senos de Aryabhata batem com os valores modernos (3438 × seno) quase sem erro: só uma entrada difere em uma unidade. E, para achar o seno de 80°, que fica entre 78°45’ e 82°30’, a reta entre os vizinhos erra por 1,4; a fórmula de Brahmagupta erra por apenas 0,1.
Com a correção de Madhava, a série de π com só 10 termos passa de 3,04 para 3,1415902. E com uma série mais rápida, π = √12 × (1 − 1/(3·3) + 1/(5·3²) − …), Madhava obteve π com 11 casas decimais: 3,14159265359. [36]
Essas ideias continuam vivas. As tabelas de funções construídas por diferenças foram usadas até a era dos computadores; a máquina diferencial de Charles Babbage (1822) foi projetada exatamente para isso. A interpolação está em qualquer programa que “preenche” valores entre medições, como os gráficos de temperatura de um aplicativo de clima. E as séries com correção de erro são a base de como calculadoras e computadores calculam seno, cosseno e logaritmo. O caminho também passou pelo mundo islâmico: os algarismos indianos e a astronomia indiana chegaram a Bagdá no século VIII, onde al-Khwarizmi os estudou, como veremos a seguir.
5. Mundo islâmico: o algoritmo e a iteração
Quem foram
Muhammad ibn Musa al-Khwarizmi (c. 780–850) trabalhou na Casa da Sabedoria, em Bagdá, um centro de pesquisa e tradução criado pelos califas abássidas. Por volta de 820, escreveu o livro que deu nome à álgebra (de al-jabr, “restaurar”) e outro que ensinava a calcular com os algarismos indianos, incluindo o zero. Quando esse segundo livro foi traduzido para o latim, no século XII, começava com “Algoritmi dixit” (“assim disse al-Khwarizmi”). Do nome dele veio a palavra algoritmo. [28]
Jamshid al-Kashi (c. 1380–1429) foi o grande calculista do observatório de Samarcanda, no atual Uzbequistão, fundado pelo sultão e astrônomo Ulugh Beg. Em 1424, calculou π com 16 casas decimais, um recorde que durou cerca de 180 anos. Em 1427, terminou A chave da aritmética, um manual de cálculo com frações decimais. [27]

Monumento em Madri; foto: Zarateman · CC0

A chave da aritmética, cópia de 1656 · domínio público
O mundo naquela época
| Data | Onde eles viviam | No resto do mundo |
|---|---|---|
| 762 | O califa al-Mansur funda Bagdá, que vira uma das maiores cidades do mundo; após 751, a técnica chinesa do papel chega ao mundo islâmico. | Na China, dinastia Tang; na Europa, Carlos Magno é coroado imperador em 800. |
| 813–833 | O califa al-Ma’mun apoia a Casa da Sabedoria: livros gregos, persas e indianos são traduzidos para o árabe. | Os vikings atacam o litoral da Europa desde 793. |
| 1405–1433 | Samarcanda é a capital cultural do Império Timúrida; Ulugh Beg constrói sua escola (1417–1420) e o observatório. | O almirante chinês Zheng He faz sete grandes viagens; Portugal conquista Ceuta (1415) e inicia as navegações que chegariam ao Brasil em 1500. |
O problema
A astronomia islâmica precisava de tabelas de senos muito precisas: para prever eclipses, montar calendários lunares, marcar os horários de oração e achar a direção de Meca. A tabela começa pelo seno de 1°, e aí estava o nó. Com geometria, é possível calcular exatamente o seno de 3°. Mas, para passar de 3° para 1°, seria preciso dividir um ângulo em três partes iguais, e isso é impossível com régua e compasso (os gregos já desconfiavam; a prova veio em 1837).
A teoria, passo a passo
Al-Kashi usou uma identidade da trigonometria: sen 3θ = 3 sen θ − 4 sen³ θ. Com θ = 1° e chamando x = sen 1°, ela vira uma equação de terceiro grau: sen 3° = 3x − 4x³. Em vez de procurar uma fórmula, ele fez algo muito moderno: reescreveu a equação na forma x = g(x) e repetiu a conta.
sen 3° = 3x − 4x³
3x = sen 3° + 4x³
x = (sen 3° + 4x³) ÷ 3 ← forma x = g(x)
chute → aplique g → novo chute → aplique g → …
Isso se chama iteração de ponto fixo. Um “ponto fixo” é um número que, colocado dentro de g, sai igual: x = g(x). No gráfico, é onde a curva de g cruza a reta y = x. Começando de um chute e aplicando g várias vezes, os valores formam uma escadinha que desce até esse ponto. Funciona quando g “encolhe as distâncias”; no caso de al-Kashi, o termo 4x³ é minúsculo (x é perto de 0,017), então cada volta muda muito pouco e o processo converge depressa.
Exemplos de uso
Começando com sen 3° ÷ 3, cada volta acrescenta de 3 a 4 casas certas. Em poucas voltas, al-Kashi tinha o seno de 1° com mais precisão do que qualquer tabela anterior. E, para o π, usou polígonos como Arquimedes, mas com 805.306.368 lados, obtendo 3,1415926535897932. [27]
A iteração de ponto fixo está hoje em toda parte: o algoritmo PageRank, que o Google usou para ordenar páginas, é uma iteração desse tipo; programas de engenharia a usam para resolver equações não lineares; e muitos métodos de inteligência artificial são, no fundo, “repita até parar de mudar”.
6. Newton e Raphson: raízes de equações
Quem foram
Isaac Newton (1643–1727) criou, entre outras coisas, as leis do movimento, a lei da gravitação e (ao mesmo tempo que Leibniz) o cálculo diferencial e integral. Num manuscrito de 1669, De analysi, mostrou como achar raízes de equações com uma sequência de correções, usando o exemplo x³ − 2x − 5 = 0. Joseph Raphson (c. 1648–1715), membro da Royal Society, publicou em 1690 uma versão mais simples e geral do método. Por isso ele se chama hoje método de Newton-Raphson. A forma com derivadas que usamos hoje foi escrita por Thomas Simpson em 1740. [54]

Godfrey Kneller, 1689 · domínio público

Termo de admissão na Royal Society, 1689 · domínio público
Não se conhece nenhum retrato de Raphson; o documento acima, com a assinatura dele, é um dos poucos registros de sua vida. Quem assina como testemunha é Edmond Halley, o do cometa.
O mundo naquela época
| Data | Onde eles viviam | No resto do mundo |
|---|---|---|
| 1665–1666 | A peste fecha a Universidade de Cambridge; Newton volta para a fazenda da família e tem suas grandes ideias. Em 1666, o Grande Incêndio de Londres. | Na França, reinado de Luís XIV; no Japão, período Edo. |
| 1687–1690 | Newton publica os Principia (1687); a Revolução Gloriosa muda a monarquia inglesa (1688); Raphson publica seu método (1690). | No Brasil, o Quilombo dos Palmares resiste até 1694–1695; em 1693–1695, bandeirantes encontram ouro em Minas Gerais. |
| 1714 | O Parlamento britânico oferece um prêmio para quem medir a longitude no mar. | A navegação oceânica depende cada vez mais de tabelas astronômicas calculadas à mão. |
O problema
Kepler tinha descoberto que os planetas giram em elipses e que varrem áreas iguais em tempos iguais. Mas, para saber onde um planeta está numa data, é preciso resolver a equação de Kepler: M = E − e · sen E. O M vem do tempo, o e diz quão achatada é a órbita e o E dá a posição. Não existe fórmula que isole o E. É um problema de achar a raiz de uma equação: o valor que faz f(E) = E − e · sen E − M dar zero. Navegadores, astrônomos e construtores de calendários precisavam fazer isso o tempo todo.
A teoria, passo a passo
A ideia de Newton é trocar a curva difícil por uma reta fácil. Visto de muito perto, qualquer curva lisa parece uma reta, a reta tangente. E achar onde uma reta corta o zero é fácil: é só uma divisão.
- Escolha um chute x₀ perto da raiz.
- Calcule a altura da curva nesse ponto, f(x₀), e a inclinação dela, f’(x₀) (a derivada).
- Siga a reta tangente até ela tocar o eixo horizontal. Esse é o novo chute, x₁.
- Repita a partir de x₁.
x novo = x − f(x) ÷ f’(x) altura ÷ inclinação = quanto andar na horizontal até o zero
Exemplos de uso
Começando em x = 2, o método acha a raiz 2,0945514815… em quatro passos. Veja a coluna de erros: 0,09, depois 0,005, depois 0,00002, depois 0,0000000002. Cada erro é mais ou menos o quadrado do anterior. É a mesma convergência quadrática do método babilônico, e não por acaso: aplicando Newton à equação x² − 2 = 0, a fórmula vira (x + 2 ÷ x) ÷ 2, exatamente a receita da tabuleta de 3.600 anos antes.
Hoje, o método de Newton roda dentro do GPS (para achar sua posição a partir dos sinais dos satélites), de programas de engenharia, de calculadoras financeiras (para achar a taxa de juros de um financiamento) e do treinamento de alguns modelos de inteligência artificial. Na mesma época, Newton também criou fórmulas de interpolação, para “ligar os pontos” de uma tabela e estimar valores intermediários, ideia aperfeiçoada por Lagrange em 1795.
7. Euler, Runge e Kutta: prevendo o futuro passo a passo
Quem foram
Leonhard Euler (1707–1783), nascido na Basileia, na Suíça, foi o matemático mais produtivo da história: seus trabalhos completos ocupam mais de 80 volumes. Trabalhou nas academias de São Petersburgo e de Berlim e continuou produzindo mesmo depois de ficar quase cego. No livro Institutionum calculi integralis (1768), descreveu o método mais simples para resolver equações diferenciais, que hoje leva seu nome. [12]
Mais de um século depois, os alemães Carl Runge (1856–1927), em 1895, e Martin Wilhelm Kutta (1867–1944), em 1901, criaram métodos muito mais precisos, conhecidos como Runge-Kutta. Kutta também é famoso na aerodinâmica, pelo cálculo da força que sustenta as asas de um avião. [5] [34]

Jakob Emanuel Handmann, 1753 · domínio público

Foto · domínio público

Foto de c. 1925 · domínio público
O mundo naquela época
| Data | Onde eles viviam | No resto do mundo |
|---|---|---|
| 1741–1766 | Euler trabalha em Berlim, a convite de Frederico, o Grande; é a época do Iluminismo e da Enciclopédia francesa. | Em 1755, um terremoto destrói Lisboa; em 1763, a capital do Brasil passa de Salvador para o Rio de Janeiro. |
| 1766–1783 | Euler volta a São Petersburgo, sob Catarina, a Grande. | James Watt patenteia sua máquina a vapor (1769); os Estados Unidos declaram independência (1776). |
| 1871–1901 | A Alemanha se unifica (1871) e vira potência industrial e científica: eletricidade, química, motores. | No Brasil, abolição da escravatura (1888) e Proclamação da República (1889); em 1906, Santos-Dumont voa com o 14-Bis em Paris. |
O problema
Muitas leis da natureza não dizem onde as coisas estão, mas como elas mudam. Um café quente esfria mais depressa quanto mais quente está. Uma bala de canhão muda de velocidade por causa da gravidade e da resistência do ar. Uma população cresce proporcionalmente ao número de habitantes. Essas regras são equações diferenciais. Resolvê-las é descobrir o caminho inteiro a partir da regra de mudança. O problema: quase nenhuma equação diferencial real tem fórmula pronta.
A teoria, passo a passo
A ideia de Euler é a mais natural possível: se você sabe para onde está indo agora, dê um passinho nessa direção e olhe de novo.
- Comece no ponto conhecido (por exemplo, a temperatura do café agora).
- Use a regra para calcular a inclinação, isto é, quão depressa a coisa está mudando neste instante.
- Ande um passo de tamanho h seguindo essa inclinação.
- No novo ponto, calcule a nova inclinação e repita.
y novo = y + h × inclinação Exemplo: y’ = y (a inclinação é igual ao próprio valor) y(0) = 1, h = 0,25: 1 → 1 + 0,25 × 1 = 1,25 → 1,25 + 0,25 × 1,25 = 1,5625 → …
O problema do método de Euler é que ele usa a inclinação do começo do passo durante o passo inteiro, e a curva vai se afastando. Passos menores ajudam, mas custam mais contas. A ideia de Runge e Kutta foi “espiar” a inclinação em vários pontos dentro do passo (no começo, duas vezes no meio e no fim) e fazer uma média ponderada. O método clássico de quarta ordem, o RK4, usa pesos 1, 2, 2 e 1. [5]
Exemplos de uso
A equação y’ = y, começando em y = 1, tem como resposta em x = 1 o famoso número e = 2,71828… Com 4 passos, Euler erra 10%; com 100 passos, ainda erra 0,5%. O RK4, com os mesmos 4 passos, erra só 0,003%. Por isso métodos do tipo Runge-Kutta são o “arroz com feijão” da simulação: estão nos motores de física dos videogames, nos programas que calculam órbitas de satélites e trajetórias de foguetes, em simulações de epidemias e em modelos de circuitos elétricos.
8. Gauss: mínimos quadrados e o planeta perdido
Quem foi
Carl Friedrich Gauss (1777–1855), filho de uma família pobre de Brunswick, na Alemanha, é chamado de “príncipe dos matemáticos”. Aos 24 anos, publicou um livro que reformulou a teoria dos números e, no mesmo ano, ficou famoso em toda a Europa por reencontrar um planeta anão perdido. Foi diretor do observatório de Göttingen por quase 50 anos e trabalhou também em magnetismo, geodésia (a medição da Terra) e no telégrafo. [32]

Christian Albrecht Jensen, 1840 · domínio público
O mundo naquela época
| Data | Onde ele vivia | No resto do mundo |
|---|---|---|
| 1801 | Gauss, que estudou com uma bolsa do duque de Brunswick, publica as Disquisitiones Arithmeticae. | Napoleão domina a Europa; a Revolução Industrial avança na Inglaterra. |
| 1806–1809 | O duque de Brunswick, protetor de Gauss, morre após a batalha de Jena contra Napoleão (1806); Gauss publica a Theoria motus (1809). | Fugindo de Napoleão, a corte portuguesa chega ao Brasil em 1808; os portos brasileiros são abertos. |
| 1818–1832 | Gauss comanda a medição geodésica do Reino de Hanôver. | Independência do Brasil em 1822. |
O problema
Em 1º de janeiro de 1801, o astrônomo Giuseppe Piazzi, em Palermo, descobriu um pequeno astro, hoje chamado Ceres. Ele o acompanhou por cerca de seis semanas, até que Ceres sumiu no brilho do Sol. Com tão poucas observações, de um pedacinho só da órbita, e com erros de medida, ninguém sabia onde procurá-lo quando voltasse a aparecer. Gauss calculou a órbita que melhor se ajustava aos dados e, em 31 de dezembro de 1801, Ceres foi reencontrado quase exatamente no lugar previsto. [32]
A teoria, passo a passo
Toda medição tem erro. Quando temos mais medições do que incógnitas, nenhuma curva passa exatamente por todos os pontos. Qual é, então, a “melhor”? A resposta de Gauss (e, de forma independente, de Adrien-Marie Legendre, que a publicou primeiro, em 1805) é o método dos mínimos quadrados: escolha a curva que torna a soma dos quadrados dos erros a menor possível. [44]
- Para cada ponto, meça a distância vertical até a reta: esse é o erro, ou resíduo.
- Eleve cada erro ao quadrado (assim, erros para cima e para baixo não se cancelam, e erros grandes pesam mais).
- Some tudo. A melhor reta é a que deixa essa soma mínima.
Por que quadrados? Gauss mostrou que, se os erros de medida seguem a famosa curva em forma de sino (a distribuição normal, também chamada de gaussiana), a reta de mínimos quadrados é a mais provável. E, de quebra, a conta tem solução por fórmula, que cai num sistema linear resolvido por eliminação, a mesma dos Nove Capítulos.
Exemplos de uso
inclinação = Σ (x − x̄)(y − ȳ) ÷ Σ (x − x̄)² = 9 ÷ 10 = 0,9 intercepto = ȳ − inclinação × x̄ = 4 − 0,9 × 3 = 1,3 altura ≈ 0,9 × semana + 1,3 → semana 6: 6,7 cm
Gauss usou os mínimos quadrados para medir o Reino de Hanôver com triângulos gigantes, entre 1818 e 1832. Hoje, o método está no GPS (que combina sinais de vários satélites com erro), na estatística (a “regressão linear”), na economia, na calibração de instrumentos e no aprendizado de máquina: treinar muitas redes neurais é, no fundo, minimizar uma soma de quadrados de erros. Gauss também criou, em 1814, uma forma muito eficiente de calcular integrais, a quadratura gaussiana, e um método iterativo para sistemas lineares, depois chamado de Gauss-Seidel.
9. Richardson: a previsão do tempo feita à mão
Quem foi
Lewis Fry Richardson (1881–1953) foi um físico e meteorologista inglês, quaker e pacifista. Durante a Primeira Guerra Mundial, trabalhou como motorista de ambulância na França e, nos intervalos, fez à mão o primeiro cálculo de previsão do tempo baseado nas leis da física. Publicou tudo no livro Weather Prediction by Numerical Process (1922). Mais tarde, estudou matematicamente as causas das guerras e descobriu que o comprimento de um litoral depende da régua usada para medi-lo, ideia que inspiraria os fractais. [38] [24]

Foto: NOAA · domínio público
O mundo naquela época
| Data | Onde ele vivia | No resto do mundo |
|---|---|---|
| 1914–1918 | Primeira Guerra Mundial; Richardson serve numa unidade de ambulâncias quaker na França (1916–1919). | Revolução Russa (1917); a gripe espanhola mata dezenas de milhões (1918–1920). |
| 1922 | Publica o livro com o cálculo e o sonho da “fábrica de previsões”. | No Brasil, Semana de Arte Moderna e centenário da Independência. |
| 1928 | Na Alemanha, Courant, Friedrichs e Lewy descobrem a regra de estabilidade das diferenças finitas. | Alexander Fleming descobre a penicilina; um ano depois, a crise de 1929. |
O problema
No começo do século XX, a previsão do tempo era feita comparando mapas do dia com mapas antigos parecidos. Richardson quis fazer diferente: medir o estado do ar agora (pressão, vento, temperatura, umidade) e usar as equações da física para calcular o ar daqui a algumas horas. Ele dividiu a Europa Central numa grade de quadrados, como um tabuleiro de xadrez, e fez as contas para prever 6 horas à frente. Levou cerca de seis semanas. E o resultado foi um fracasso: previu uma variação de pressão de 145 hectopascais, quando a real foi quase nula. [24]
Mesmo assim, Richardson imaginou o futuro: uma “fábrica de previsões”, um grande teatro com 64 mil calculistas humanos, cada um responsável por um pedaço do mapa, coordenados por um maestro. Era a descrição de um supercomputador paralelo, décadas antes de ele existir. Anos depois, descobriu-se que o erro vinha dos dados iniciais, que tinham “ruído” demais; quando o cálculo foi refeito com dados suavizados, a previsão ficou razoável. [24]
A teoria, passo a passo
As leis da física falam em derivadas: quão depressa a pressão muda de um lugar para outro, quão depressa a temperatura muda com o tempo. Um computador (humano ou eletrônico) não sabe fazer derivadas; sabe fazer contas. A solução são as diferenças finitas: trocar a derivada por uma diferença entre pontos vizinhos da grade.
derivada: f’(x) ≈ (f(x + h) − f(x)) ÷ h curvatura: f”(x) ≈ (f(x − h) − 2 f(x) + f(x + h)) ÷ h² Regra do calor numa grade: T novo = T + r × (T esquerda − 2 T + T direita)
Há uma armadilha, descoberta em 1928 por Richard Courant, Kurt Friedrichs e Hans Lewy: se o passo no tempo for grande demais em relação ao tamanho dos quadradinhos, os erros crescem a cada passo e a simulação “explode”. Essa é a condição CFL, e ela vale até hoje em qualquer simulação de clima, som, ondas ou explosões. [8]
Exemplos de uso
No exemplo, a ponta esquerda de uma barra fica no fogo (100°) e a direita no gelo (0°). A cada passo, cada ponto interno vira a média dos vizinhos (é a regra do calor com r = 0,5). Em 30 passos, a barra chega perto do equilíbrio: uma rampa de 100 a 0. A previsão do tempo moderna faz exatamente isso, só que em 3D, com bilhões de pontos, vento, umidade e radiação.
O sonho de Richardson virou realidade em 1950, quando Jule Charney, Ragnar Fjørtoft e John von Neumann fizeram a primeira previsão numérica bem-sucedida no computador ENIAC. A previsão de 24 horas levou cerca de 24 horas para ser calculada: empatou com o tempo real, mas funcionou. [24]
10. A era digital: erros de arredondamento e Monte Carlo
Quem foram
O ENIAC, terminado no fim de 1945 na Universidade da Pensilvânia, foi um dos primeiros computadores eletrônicos de uso geral. Foi construído para calcular tabelas de tiro de artilharia e era programado, com cabos e chaves, por uma equipe de seis mulheres matemáticas, entre elas Betty Snyder e Kay McNulty.
John von Neumann (1903–1957), húngaro radicado nos Estados Unidos, e Herman Goldstine publicaram em 1947 a primeira análise rigorosa de como os erros de arredondamento se acumulam num computador ao resolver sistemas lineares: muitos consideram esse artigo o nascimento da análise numérica moderna. [52] [16] Em 1948, Alan Turing (1912–1954) estudou o mesmo problema e criou a ideia de número de condição, que mede quão sensível é um problema a pequenos erros. [50] Stanislaw Ulam, von Neumann e Nicholas Metropolis criaram em Los Alamos o método de Monte Carlo (1946–1949). [25] E William Kahan (nascido em 1933) liderou a criação do padrão IEEE 754 (1985), que define como quase todos os computadores do mundo guardam números com vírgula; por isso recebeu o Prêmio Turing em 1989. [1]

Exército dos EUA · domínio público

Foto: Los Alamos National Laboratory

Elliott & Fry, 1951 · domínio público

Foto: George M. Bergman, 2008 · CC BY-SA 4.0
O mundo naquela época
| Data | Onde eles viviam | No resto do mundo |
|---|---|---|
| 1939–1945 | Segunda Guerra Mundial; o Projeto Manhattan, em Los Alamos, precisa de cálculos gigantescos; o ENIAC fica pronto no fim de 1945. | O Brasil envia a Força Expedicionária Brasileira à Itália (1944–1945). |
| 1947–1969 | Guerra Fria: corrida espacial, Sputnik (1957) e a chegada à Lua (1969) exigem cálculos de órbitas cada vez mais precisos. | No Brasil, o governo de São Paulo compra um dos primeiros computadores do país (1957); Brasília é inaugurada (1960); a USP constrói o “Patinho Feio” (1972), o primeiro computador feito no Brasil. |
| 1985–1996 | O padrão IEEE 754 (1985) unifica a aritmética dos computadores. | Popularização dos computadores pessoais; a internet comercial chega ao Brasil em 1995. |
O problema
Um computador faz bilhões de contas por segundo, mas cada número é guardado com um número limitado de casas. Cada conta pode introduzir um erro minúsculo de arredondamento. O perigo é que esses erros se acumulem ao longo de milhões de passos. Três casos reais:
- Bolsa de Vancouver (1982–1983): o índice começou em 1.000 e, a cada atualização, era cortado (não arredondado) na terceira casa decimal. Em 22 meses, caiu para 524,811, quando o valor correto era 1.098,892. [53]
- Míssil Patriot (1991): o relógio do sistema contava décimos de segundo, mas 0,1 não pode ser escrito exatamente em binário. Depois de 100 horas ligado, o erro chegou a 0,34 segundo, o suficiente para o radar procurar o míssil inimigo a mais de 600 metros do lugar certo. Em 25 de fevereiro de 1991, em Dhahran, na Arábia Saudita, a falha deixou passar um míssil que matou 28 soldados. [51]
- Foguete Ariane 5 (1996): no voo inaugural, um número grande demais foi convertido para um formato de 16 bits, que não comportava o valor. O sistema de navegação falhou e o foguete se autodestruiu 37 segundos após o lançamento. [11]
A teoria, passo a passo
Ponto flutuante. O computador guarda números como a notação científica que aprendemos na escola (6,02 × 10²³), só que em binário: um sinal, uma mantissa com os algarismos e um expoente que diz onde fica a vírgula. No formato mais usado (precisão dupla do IEEE 754), a mantissa tem 53 algarismos binários, o que dá cerca de 16 casas decimais. [15]
- Os números que o computador consegue guardar são como marquinhas numa régua: bem apertadas perto do zero e cada vez mais espaçadas para números grandes.
- Qualquer número que caia entre duas marquinhas é arredondado para a mais próxima.
- 0,1 em binário é 0,000110011001100…, com “0011” repetindo para sempre. Por isso, ele é guardado com um erro minúsculo, e 0,1 + 0,2 dá 0,30000000000000004.
Estabilidade e condicionamento. Von Neumann, Turing e depois James Wilkinson separaram duas perguntas. A primeira: o problema é sensível? Um problema mal condicionado (com número de condição alto) amplifica qualquer erro dos dados, não importa o método. A segunda: o algoritmo é estável? Um algoritmo estável não amplifica os erros de arredondamento além do que o próprio problema já amplificaria. Wilkinson mostrou, nos anos 1960, que a boa pergunta é: “a resposta calculada é a resposta exata de um problema quase igual?” Isso se chama análise de erro regressiva. [19]
Monte Carlo. Em 1946, recuperando-se de uma doença e jogando paciência, Ulam se perguntou qual era a chance de ganhar uma partida. Calcular era difícil; jogar muitas vezes e contar era fácil. Assim nasceu a ideia de resolver problemas usando sorteios. O nome, sugerido por Metropolis, é uma homenagem ao cassino de Monte Carlo. [25]
Exemplos de uso
Sorteie pontos ao acaso num quadrado de lado 1. A fração que cai dentro do quarto de círculo é, aproximadamente, a área dele: π ÷ 4. Com 200 pontos, obtemos 3,16; com 1 milhão, 3,1414. O método é lento para π (o erro cai como 1 dividido pela raiz do número de pontos), mas tem uma vantagem enorme: continua funcionando em problemas com centenas de dimensões, onde as grades de Richardson são impossíveis. Por isso Monte Carlo é usado para calcular risco no mercado financeiro, simular reatores nucleares, desenhar luz realista em filmes de animação e prever a propagação de epidemias.
Outras conquistas dessa época: a transformada rápida de Fourier (FFT), de James Cooley e John Tukey (1965), que acelera o processamento de som, imagem e sinais e está em todo celular [7]; e as bibliotecas de álgebra linear, como LINPACK e LAPACK, que colocaram décadas de pesquisa ao alcance de qualquer programador.
Grandes problemas sem resposta
Depois de quatro mil anos, o Cálculo Numérico continua cheio de perguntas em aberto. Algumas valem prêmios de 1 milhão de dólares; outras estão por trás de tecnologias que usamos todos os dias sem saber exatamente por que funcionam.
1. Navier-Stokes e a turbulência
As equações de Navier-Stokes, do século XIX, descrevem o movimento de líquidos e gases: ar, água, sangue. Ninguém conseguiu provar que elas sempre têm uma solução “bem comportada” em três dimensões, ou que às vezes a solução “explode”. É um dos sete Problemas do Milênio, com prêmio de 1 milhão de dólares do Instituto Clay. [6]
Exemplo de uso: projetar a asa de um avião. O ar em volta da asa é turbulento: forma redemoinhos de muitos tamanhos, dos metros aos décimos de milímetro. Para simular todos eles diretamente, a grade precisaria de um número de pontos que cresce mais ou menos como a potência 9/4 do chamado número de Reynolds; para um avião comercial, isso daria quatrilhões de pontos (10¹⁵ ou mais), acompanhados por milhões de passos de tempo, muito além de qualquer computador atual. Por isso, engenheiros usam modelos de turbulência: fórmulas aproximadas para os redemoinhos pequenos, calibradas com experimentos. Elas funcionam bem na maioria dos casos, mas falham em situações extremas, como um avião perto de perder a sustentação. O mesmo vale para carros de Fórmula 1, turbinas eólicas, previsão do tempo e fluxo de sangue em artérias. Sem entender a matemática das equações, não sabemos garantir quando a simulação é confiável.
2. Quão rápido dá para multiplicar matrizes?
Multiplicar duas tabelas de números n × n (matrizes) pelo método da escola custa n³ multiplicações. Em 1969, Volker Strassen mostrou que dava para fazer menos, cerca de n^2,807. [45] Desde então, a corrida pelo menor expoente, chamado ω, nunca parou. O recorde em 2024 é ω < 2,371339. [3] A pergunta em aberto: dá para chegar a ω = 2, ou seja, multiplicar matrizes quase tão depressa quanto ler os números?
Exemplo de uso: treinar uma inteligência artificial como um grande modelo de linguagem consiste, na maior parte do tempo, em multiplicar matrizes enormes em placas gráficas. Um algoritmo melhor economizaria energia e dinheiro em escala mundial. Mas há uma pegadinha: os algoritmos com os menores expoentes são “galácticos”, só ganham do método comum para matrizes tão grandes que não cabem em computador nenhum. Na prática, os ganhos vêm de truques menores. Em 2022, o sistema de IA AlphaTensor achou uma forma de multiplicar matrizes 4 × 4 com 47 multiplicações, numa aritmética especial [13]; em 2025, o AlphaEvolve achou uma com 48 multiplicações para números complexos, melhorando um recorde de Strassen que durava 56 anos. [26]
3. Existe um algoritmo “fortemente polinomial” para programação linear?
Programação linear é o problema de escolher quantidades (quanto produzir, transportar ou comprar) para gastar o mínimo ou lucrar o máximo, respeitando limites. George Dantzig criou em 1947 o método simplex, que resolve esses problemas muito depressa na prática. Mas, em 1972, Victor Klee e George Minty mostraram exemplos em que ele leva um tempo exponencial. Depois vieram métodos com garantia de tempo polinomial (Khachiyan, 1979; Karmarkar, 1984), mas o tempo deles depende de quantos dígitos têm os dados. Existe um método cujo número de passos dependa só do número de variáveis e restrições? Esse é o 9º problema da lista de Steve Smale para o século XXI, ainda sem resposta. [42]
Exemplo de uso: uma companhia aérea precisa montar a escala de milhares de pilotos e comissários para milhares de voos, respeitando horas de descanso, bases e custos. Refinarias decidem quanto de cada combustível produzir; redes de supermercados, quanto enviar a cada loja. O primeiro grande exemplo foi o “problema da dieta”: em 1947, resolvê-lo com o simplex (achar a dieta mais barata que cumpre as necessidades nutricionais) levou 120 dias de trabalho de 9 pessoas com calculadoras de mesa. Hoje leva milissegundos. Em 2004, Daniel Spielman e Shang-Hua Teng explicaram em parte por que o simplex é rápido na prática, com a análise suavizada: os casos lentos são tão “frágeis” que uma pequena perturbação nos dados os desfaz. [43] Mas a pergunta de Smale continua aberta.
4. Por que a eliminação de Gauss funciona tão bem?
O método dos Nove Capítulos, com uma pequena melhoria chamada pivoteamento parcial (trocar linhas para dividir sempre pelo maior número disponível), é usado em praticamente todo software científico. Em teoria, porém, há matrizes em que os números intermediários crescem como 2ⁿ⁻¹, o que destruiria todas as casas decimais de um sistema com algumas dezenas de incógnitas. Na prática, isso quase nunca acontece. Por quê? Lloyd Trefethen e Robert Schreiber estudaram o comportamento médio em 1990, mas uma explicação completa ainda não existe. [48]
Exemplo de uso: ao projetar um prédio, um programa de engenharia estrutural resolve sistemas com centenas de milhares de incógnitas usando eliminação. Se o crescimento “teórico” acontecesse, o resultado seria lixo numérico, e ninguém perceberia sem uma verificação. Confiamos nesses programas porque décadas de experiência mostram que funcionam, e não porque exista uma prova de que sempre funcionarão.
5. A maldição da dimensionalidade e o mistério das redes neurais
As grades de Richardson funcionam bem em 1, 2 ou 3 dimensões. Mas muitos problemas têm dezenas ou centenas de dimensões. Com só 10 pontos por direção, uma grade em 100 dimensões teria 10¹⁰⁰ pontos, mais do que os átomos do universo observável. Isso se chama maldição da dimensionalidade.
Exemplo de uso: um banco quer calcular o preço justo de um contrato que depende de 100 ações diferentes. A equação de Black-Scholes para esse caso tem 100 dimensões. Em 2018, Jiequn Han, Arnulf Jentzen e Weinan E mostraram que redes neurais conseguem resolver equações desse tipo em centenas de dimensões. [17] O mesmo acontece na química quântica, em que cada elétron de uma molécula acrescenta três dimensões. Funciona, mas a teoria ainda não explica completamente por que as redes neurais escapam da maldição, nem quando se pode confiar no resultado. É uma das perguntas mais ativas da matemática de hoje.
Projeções de futuro
Prever o futuro de uma ciência é arriscado, mas algumas tendências já estão em curso e devem marcar as próximas décadas.
Computadores de exaescala e o limite da energia
Em 2022, o supercomputador Frontier, nos Estados Unidos, foi o primeiro a passar oficialmente de 1 exaflop, ou seja, 10¹⁸ contas por segundo. [46] Em 2024, o El Capitan chegou a cerca de 1,7 exaflop. [47] No Brasil, o supercomputador Santos Dumont, do LNCC, em Petrópolis, atende pesquisas de clima, energia e saúde. [22] O próximo limite não é a velocidade, mas a energia: essas máquinas consomem dezenas de megawatts. Por isso, a eficiência dos algoritmos vai valer cada vez mais do que a força bruta.
Precisão sob medida
As placas gráficas feitas para inteligência artificial são muito mais rápidas com números de baixa precisão, de 16 ou até 8 bits. Uma linha forte de pesquisa mistura precisões: faz a maior parte do trabalho com poucas casas e depois corrige o resultado com algumas contas em alta precisão, recuperando as 16 casas. [20] Para isso, a análise de erro de Wilkinson e Kahan fica ainda mais importante.
Inteligência artificial como calculista
Em 2023, o modelo GraphCast, treinado com décadas de dados, fez previsões de 10 dias em menos de um minuto, superando o melhor modelo tradicional na maioria das medidas. [21] Em 25 de fevereiro de 2025, o Centro Europeu de Previsões Meteorológicas (ECMWF) colocou em operação seu próprio modelo de IA, o AIFS, que gasta cerca de mil vezes menos energia por previsão. [10] Também surgiram as redes neurais informadas pela física, que aprendem respeitando as equações. [40] O desafio para o futuro é garantir o erro: um modelo de IA pode acertar muito e, de vez em quando, errar de forma inesperada. A tendência é combinar IA com os métodos clássicos, que dão garantias.
IA inventando algoritmos
AlphaTensor (2022) e AlphaEvolve (2025) mostraram que sistemas de IA podem descobrir algoritmos numéricos novos, que depois são verificados por matemáticos. [13] [26] É provável que muitas das próximas melhorias em algoritmos de multiplicação, integração e otimização venham dessa parceria entre humanos e máquinas.
Computação quântica, com cautela
Em 2009, Aram Harrow, Avinatan Hassidim e Seth Lloyd propuseram um algoritmo quântico para sistemas lineares que, em certas condições, seria exponencialmente mais rápido. [18] Mas o próprio Scott Aaronson resumiu o problema: é preciso “ler as letras miúdas”. Carregar os dados no computador quântico, ler a resposta e o condicionamento do problema podem apagar a vantagem. [2] A projeção mais realista é que computadores quânticos ajudem em problemas específicos, como simular moléculas, e não substituam o Cálculo Numérico clássico.
Gêmeos digitais e o limite do caos
Projetos como o Destination Earth, da União Europeia, querem construir um gêmeo digital da Terra: uma simulação em altíssima resolução, alimentada continuamente por dados, para testar cenários de clima e desastres. [9] A mesma ideia vale para o coração de um paciente, uma fábrica ou uma cidade. Mas há um limite que nenhum computador vence: em 1963, Edward Lorenz mostrou que a atmosfera é caótica: pequenos erros nos dados crescem até destruir a previsão. [23] Estudos posteriores estimam que, para o tempo do dia a dia, esse limite fica em torno de duas semanas. Por isso, o futuro não é uma única previsão perfeita, mas conjuntos de previsões com probabilidades: “70% de chance de chuva” é Cálculo Numérico sendo honesto sobre o próprio erro.
Conclusões
O escriba da Babilônia, Arquimedes, Liu Hui, Aryabhata, Madhava, al-Kashi, Newton, Euler, Gauss, Richardson, von Neumann e Kahan viveram em mundos muito diferentes, com ferramentas muito diferentes: argila, areia, varetas, papel, calculadoras mecânicas, válvulas e chips. Mas todos fizeram a mesma coisa: trocaram um problema impossível de resolver exatamente por uma sequência de contas simples e se perguntaram quão confiável era a resposta.
Algumas ideias atravessaram milênios quase intactas. O método babilônico reapareceu como caso particular do método de Newton. As diferenças da tabela de senos de Aryabhata anteciparam as de Richardson, e os termos de correção de Madhava já eram estimativas de erro. A eliminação dos Nove Capítulos virou a eliminação de Gauss e hoje mede a velocidade dos supercomputadores. As diferenças finitas de Richardson, feitas à mão durante uma guerra, viraram a previsão do tempo que você consulta no celular.
Ao mesmo tempo, o Cálculo Numérico está longe de terminado. Não sabemos se as equações dos fluidos sempre têm solução, nem quão depressa se pode multiplicar matrizes, nem por que alguns dos nossos métodos favoritos funcionam tão bem. E a inteligência artificial, que depende inteiramente de Cálculo Numérico, trouxe novas perguntas sobre confiança e erro.
Talvez a maior lição seja esta: calcular bem não é ter todas as casas decimais, mas saber quais delas são verdadeiras. Da tabuleta de argila ao supercomputador, essa continua sendo a arte do Cálculo Numérico.
Glossário essencial
- Algoritmo
- Receita com um número finito de passos para resolver um problema.
- Arredondamento
- Erro causado por guardar um número com uma quantidade limitada de casas.
- Condicionamento
- Sensibilidade de um problema a pequenas mudanças nos dados; problemas mal condicionados amplificam erros.
- Convergência
- Quando as aproximações de um método chegam cada vez mais perto da resposta. É quadrática quando as casas certas dobram a cada passo.
- Derivada
- A inclinação de uma curva num ponto; mede quão depressa algo está mudando.
- Diferenças finitas
- Troca de derivadas por diferenças entre valores em pontos vizinhos de uma grade.
- Equação diferencial
- Equação que descreve como uma quantidade muda, em vez de dizer seu valor diretamente.
- Estabilidade
- Qualidade de um algoritmo que não amplifica os erros de arredondamento além do inevitável.
- Interpolação
- Estimar valores entre os pontos conhecidos de uma tabela, “ligando os pontos” com uma reta ou uma curva.
- Iteração
- Repetir a mesma conta, usando o resultado anterior como ponto de partida.
- Mínimos quadrados
- Escolher a curva que torna mínima a soma dos quadrados dos erros.
- Monte Carlo
- Família de métodos que usam sorteios aleatórios para estimar resultados.
- Ponto flutuante
- Forma de guardar números no computador como notação científica em binário (padrão IEEE 754).
- Raiz de uma equação
- Valor que faz uma expressão f(x) dar zero.
- Série infinita
- Soma com infinitos termos cujo total se aproxima de um valor, como 1 − 1/3 + 1/5 − … = π/4.
- Sistema linear
- Conjunto de equações de primeiro grau com várias incógnitas.
- Truncamento
- Erro causado por interromper um processo infinito, como uma soma sem fim ou uma iteração.
Revisão rápida
1. O que o Cálculo Numérico estuda?
Algoritmos que resolvem, de forma aproximada e com erro controlado, problemas com números reais, curvas e mudanças.
2. Qual é a receita babilônica para √N?
Novo chute = (chute + N ÷ chute) ÷ 2, repetido até ficar bom o bastante.
3. Como Arquimedes garantiu que sua aproximação de π estava certa?
Espremendo o círculo entre um polígono de dentro e outro de fora: π fica obrigatoriamente entre os dois perímetros.
4. Qual é a ideia da eliminação dos Nove Capítulos?
Combinar equações para ir zerando incógnitas até sobrar uma equação com uma só incógnita, e depois voltar resolvendo.
5. De onde vem a palavra “algoritmo”?
Do nome do matemático al-Khwarizmi, que trabalhou em Bagdá por volta de 820.
6. Qual é a fórmula do método de Newton?
x novo = x − f(x) ÷ f’(x): segue-se a reta tangente até ela cortar o eixo.
7. Por que o método de Runge-Kutta é melhor que o de Euler?
Porque mede a inclinação em vários pontos do passo e faz uma média, em vez de usar só a do começo.
8. O que o método dos mínimos quadrados minimiza?
A soma dos quadrados dos erros entre os dados e a curva.
9. Por que 0,1 + 0,2 não dá exatamente 0,3 no computador?
Porque 0,1 e 0,2 têm infinitas casas em binário e são arredondados ao ser guardados.
10. Por que a previsão do tempo não pode ser perfeita por mais de duas semanas?
Porque a atmosfera é caótica: pequenos erros nos dados crescem até dominar a previsão.
11. O que Madhava fez de novo com as séries infinitas?
Além de somar os termos, estimou o pedaço que faltava quando se parava no meio (um termo de correção), ou seja, estimou o erro de truncamento.
Referências
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