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Entrevista

A morte da indústria de certificados

Uma conversa sobre o futuro da TI e dos seus profissionais na era da IA: por que o certificado deixou de ser porta de entrada, o que é o novo agile e o que esperar até 2030.

O fim de uma moeda

Durante duas décadas, o certificado foi a moeda de confiança da TI. Com a IA generativa respondendo em segundos o que antes exigia semanas de estudo, essa moeda começou a perder valor.

Nesta entrevista, Giovani Perotto Mesquita explica por que acredita que o modelo de negócio baseado em memorização está com os dias contados, o que muda para a TI e seus profissionais, e quais dados ainda relativizam essa tese.

O título fala em “morte” da indústria de certificados. Não é exagero?

É uma tese direta, mas não é sobre o fim do conhecimento. É sobre o fim de uma forma específica de provar conhecimento, baseada em memorização e em provas de múltipla escolha. O certificado dizia ao recrutador que alguém dominava o manual do fornecedor e tinha passado numa prova. Hoje, qualquer pessoa obtém em segundos a sintaxe de um comando, o passo a passo de uma configuração ou a resposta de um simulado. Saber de cor deixou de ser diferencial.

Por que a IA atinge justamente o certificado?

Porque o que a prova mede é exatamente o que a máquina faz melhor. Pesquisadores de Stanford destacam a proficiência da IA em trabalho baseado em conhecimento codificado, aquele registrado em manuais, livros e procedimentos escritos. [1] O manual do fornecedor é conhecimento codificado por definição.

Dois painéis. À esquerda, o que a prova mede e a IA já entrega sozinha: sintaxe de comandos, passo a passo de configuração, respostas de simulado, conteúdo decorado do manual e múltipla escolha padronizada. Uma seta indica que o valor migra para a direita, para o que o mercado valoriza: formulação de problemas, julgamento técnico, pensamento sistêmico, domínio do negócio e prova de execução. Abaixo, barras comparam o prêmio salarial médio no 1º trimestre de 2026: 9,3% para habilidades não certificadas e 6,5% para certificações.
À esquerda, o que a IA já entrega sozinha; à direita, o que passa a separar um profissional do outro.

E o mercado já está reagindo?

Já, com nuances. Segundo a Foote Partners, os prêmios salariais caíram pelo terceiro ano seguido, tanto para certificações quanto para habilidades não certificadas, e estas continuam pagando, em média, cerca de 3 pontos percentuais do salário base a mais. [3] [4] Em cibersegurança, as empresas também estão investindo menos: só 73% se dizem dispostas a pagar certificações dos funcionários, contra 89% em 2023. [5]

Vantagem das não certificadas
Cerca de 3 pontos do salário base
Dispostas a pagar (cibersegurança)
73% em 2025, contra 89% em 2023
Prêmio médio, 1º tri 2026
9,3% não certificadas × 6,5% certificações

O futuro da TI

Se o certificado perde valor, o que acontece com a própria área de TI?

A TI deixa de ser a área que executa tarefas técnicas e passa a ser a área que orquestra resultados. Codificar, configurar e documentar viram atividades cada vez mais assistidas ou delegadas a agentes de IA.

De que escala de mudança estamos falando?

Grande. Empregadores ouvidos pelo Fórum Econômico Mundial esperam que 39% das habilidades centrais mudem até 2030. [11] O Gartner projeta que a IA generativa vai criar novos papéis em engenharia e operações, exigindo a requalificação de 80% dos engenheiros até 2027. [6]

Três linhas comparam a TI antes e com a IA. Primeira: de executar tarefas técnicas para orquestrar resultados. Segunda: da ferramenta isolada para o processo de ponta a ponta. Terceira: de produzir código como a parte cara para decidir o que construir como a parte cara. Abaixo, dois indicadores: 39% das habilidades centrais devem mudar até 2030, segundo o Fórum Econômico Mundial, e 80% dos engenheiros precisarão se requalificar até 2027, segundo o Gartner.
Três mudanças estruturais: antes e com a IA.

Na prática, o que muda no dia a dia?

O trabalho central passa a ser definir o problema, revisar o que a IA produziu e garantir que a solução é segura e sustentável. O foco sai da ferramenta isolada e vai para o processo de ponta a ponta. E há uma inversão importante: como produzir código ficou barato, decidir o que vale a pena construir ficou caro.

Toda TI sobrevive a essa transição?

Não. A TI que sobrevive é a que fala a língua do negócio. A TI que se limita a “abrir chamado e entregar” tende a ser absorvida por plataformas e agentes.

O futuro do profissional

Como muda a forma de avaliar um profissional de TI?

Ele passa a ser avaliado pelo que entrega, não pelo que sabe recitar. A pergunta de entrevista muda de “você tem a certificação X?” para “mostre um problema real que você resolveu e como resolveu”.

Já existem sinais concretos disso no emprego?

Sim, e eles atingem principalmente quem está começando. Pesquisadores de Stanford analisaram dados de folha de pagamento da ADP nos Estados Unidos. Na versão de 2025 do estudo, o emprego de desenvolvedores de 22 a 25 anos já tinha caído quase 20% em relação ao pico do fim de 2022. Na revisão de 2026, o emprego de jovens em ocupações expostas à IA está 19% abaixo de onde estaria se tivesse acompanhado o dos colegas menos expostos, enquanto os experientes não mostram diferença equivalente. [1]

Dois painéis. À esquerda, automação: quando a IA substitui tarefas, as vagas de entrada encolhem. O emprego de desenvolvedores de 22 a 25 anos caiu quase 20% em relação ao pico do fim de 2022, e jovens em ocupações expostas à IA estão 19% abaixo da tendência dos menos expostos. À direita, ampliação: quando a IA complementa o trabalho, o emprego se mantém ou cresce, e profissionais experientes não mostram queda equivalente.
Automação × ampliação: o efeito no emprego depende do tipo de uso da IA.

Então a IA elimina vagas?

Depende do tipo de uso, e esse é o ponto decisivo. Onde a IA substitui tarefas, as vagas de entrada encolhem. Onde ela complementa o trabalho, o emprego se mantém ou cresce, sobretudo para quem tem experiência.

E o salário acompanha essa tendência?

No valor, sim, mas a vantagem vem diminuindo. No 1º trimestre de 2026, habilidades não certificadas rendiam prêmio médio de 9,3% do salário base, contra 6,5% das certificações. [4] Em IA a diferença é ainda maior: 14,5% para habilidades não certificadas contra 8,3% para certificações. Só que, em IA, são as certificações que mais crescem: quase 12% em um ano, enquanto as habilidades não certificadas caíram 1%. [9]

Quais competências ganham peso, então?

Eu destacaria cinco:

  • Pensamento sistêmico: entender como tecnologia, pessoas e processo se conectam.
  • Formulação de problemas: saber pedir bem, seja a um colega, a um cliente ou a um agente de IA.
  • Julgamento técnico: identificar quando a resposta da IA está errada, insegura ou inadequada.
  • Domínio do negócio: conhecer o setor em que atua tanto quanto a stack.
  • Prova de execução: portfólio, repositórios públicos e resultados mensuráveis no lugar de selos. Um especialista ouvido pela Dice resume: um bom repositório no GitHub convence muito mais que um item no currículo. [3]

Por que o julgamento técnico merece destaque?

Porque a sensação de produtividade engana. Num experimento controlado com 16 desenvolvedores experientes de projetos open source, as tarefas feitas com IA levaram 19% mais tempo, mas eles acreditavam ter sido 20% mais rápidos. [7] Os autores alertam que é um retrato do início de 2025, num contexto específico. Saber avaliar o que a ferramenta entrega vale mais do que usá-la muito.

O certificado desaparece de vez?

Não completamente. Ele sobrevive onde há exigência regulatória ou contratual, como segurança e infraestrutura crítica. Mas deixa de ser porta de entrada e vira, no máximo, um complemento.

O novo agile

O que é o “novo agile”?

O agile nasceu para encurtar o ciclo entre ideia e entrega. A IA encurta esse ciclo ainda mais, a ponto de tornar parte dos rituais tradicionais lenta demais. E há uma ironia: o agile também virou uma indústria de certificados. Muitas empresas trocaram agilidade real por cerimônias, papéis e frameworks aplicados de forma burocrática. O novo agile resgata o espírito do manifesto original: pessoas, software funcionando e resposta à mudança.

Como funciona esse ciclo?

Ele parte de um objetivo de negócio, não de um item de backlog. Como o protótipo sai em horas, a validação acontece antes de qualquer grande investimento.

Ciclo de quatro etapas em sentido horário ao redor do princípio resultado, não volume. Etapa 1, objetivo de negócio: o ponto de partida, não o backlog. Etapa 2, protótipo com IA, gerado em horas na própria conversa. Etapa 3, validação, antes de qualquer grande investimento. Etapa 4, aprendizado: escalar, ajustar ou descartar, voltando ao objetivo de negócio.
O ciclo do novo agile, em quatro etapas.

O que muda em relação ao agile tradicional?

Quase tudo o que é operacional:

AspectoAgile tradicionalNovo agile
Ciclo de entregaSprints de 2 a 4 semanasIterações de horas ou dias
ProtótipoCaro, entra no backlogBarato, gerado na própria conversa
Composição do timePapéis fixos e especializadosTimes menores, com humanos e agentes de IA
Métrica de sucessoVelocidade e pontosResultado de negócio e aprendizado validado
DocumentaçãoEscrita manualmente, muitas vezes desatualizadaGerada e mantida continuamente com apoio da IA

Mais velocidade não traz mais risco?

Traz, se não houver critério. O estudo do METR mostrou que a sensação de rapidez com IA pode enganar até profissionais experientes. [7] Por isso o novo agile mede resultado, não volume de entregas.

E o papel do líder?

Muda também: menos facilitação de cerimônias e mais definição clara de objetivos, limites e critérios de qualidade, para humanos e máquinas.

Customizar ou evoluir o processo

Se customizar ficou barato, isso não é uma boa notícia?

É uma armadilha. Quando cada área pode pedir um sistema sob medida e recebê-lo em dias, a tentação é automatizar o processo como ele está, inclusive seus defeitos. Automatizar um processo ruim só produz erro em escala. O dilema central da TI deixa de ser “comprar ou construir” e passa a ser “adaptar a ferramenta ao processo ou evoluir o processo”.

Como decidir?

Duas perguntas bastam.

Árvore de decisão com duas perguntas e três caminhos. Diante de um pedido de novo sistema, pergunte antes por que o processo existe. Primeira pergunta: é diferencial competitivo? Se sim, customize. Se não, segunda pergunta: a IA elimina etapas inteiras? Se sim, redesenhe o fluxo do zero. Se não, evolua o processo com boas práticas e ferramentas padrão, como em financeiro, RH e compras. Um alerta lembra que automatizar um processo ruim só produz erro em escala.
Árvore de decisão: duas perguntas, três caminhos.

Customize apenas o que é diferencial competitivo, algo que o concorrente não faz igual. Se a IA elimina etapas inteiras, redesenhe o fluxo do zero. Nos demais casos, como financeiro, RH e compras, evolua o processo com boas práticas e ferramentas padrão.

Qual é o papel do profissional nesse momento?

Fazer a pergunta incômoda antes de escrever uma linha de código: “por que esse processo existe?”. Customizar sem essa pergunta gera uma nova geração de dívida técnica, agora produzida em velocidade de IA.

Os próximos anos

Como você enxerga a transição até 2030?

Não será instantânea, mas o sentido é claro. O Fórum Econômico Mundial estima que 170 milhões de postos serão criados e 92 milhões deslocados até 2030, um saldo de 78 milhões. [11] Trata-se de transformação, não de extinção do trabalho. A título de projeção, vejo três fases.

Linha do tempo com três fases projetadas. Adoção, de 2026 a 2027: agentes de IA no dia a dia de desenvolvimento, suporte e operações, e seleção por desafios práticos com IA liberada. Reorganização, de 2028 a 2029: times menores e mais multidisciplinares, e provas de múltipla escolha substituídas por laboratórios e simulações. Fusão com o negócio, de 2030 em diante: menos distância entre quem pede e quem constrói, e credenciais que viram portfólios verificáveis. Abaixo, a estimativa do Fórum Econômico Mundial até 2030: 170 milhões de postos criados, 92 milhões deslocados, saldo de 78 milhões.
Roadmap: três fases até 2030, a título de projeção.

Quais são essas fases?

A primeira é a adoção, em 2026 e 2027: agentes de IA viram parte do dia a dia de desenvolvimento, suporte e operações, e as empresas passam a avaliar candidatos por desafios práticos, com uso de IA liberado.

A segunda é a reorganização, em 2028 e 2029: times de TI ficam menores e mais multidisciplinares, e a avaliação troca a múltipla escolha por laboratórios e simulações, movimento que já começa na preparação para as provas. [3]

A terceira é a fusão com o negócio, de 2030 em diante: a distância entre “quem pede” e “quem constrói” diminui, e credenciais passam a ser portfólios verificáveis e históricos de entrega. O Gartner projeta que, no longo prazo, as organizações precisarão de ainda mais engenheiros qualificados para atender à demanda por software com IA. [6]

E no Brasil?

O movimento deve ter ritmo próprio. Setores regulados e o setor público tendem a manter exigências formais de certificação por mais tempo; startups e empresas de tecnologia devem abandonar esse critério mais cedo.

Os contrapontos

O que poderia enfraquecer a sua tese?

Um argumento forte precisa reconhecer os dados que o relativizam, e há alguns:

  • O certificado voltou a valorizar. No 1º trimestre de 2026, os prêmios por certificação subiram 1,8%, a maior alta trimestral em dez anos, puxados por infraestrutura, segurança e arquitetura. No mesmo período, os das habilidades não certificadas caíram 2,2%, a maior queda desde 2002. [4] [10] O selo resiste, sobretudo onde há exigência técnica ou regulatória.
  • Gestores ainda preferem certificados. Na pesquisa da Fortinet, 89% dos gestores de TI disseram preferir contratar profissionais de cibersegurança certificados. [5]
  • Empresas de tecnologia ainda contratam credenciados. Elas raramente exigem credenciais nas vagas, mas são as que mais contratam profissionais com credenciais. [2]
  • Correlação não é causa. Os próprios autores do estudo de Stanford alertam que os resultados são descritivos, não causais. Eles testam explicações alternativas, como juros, escolaridade e trabalho remoto, e o efeito diminui quando se controla a escolaridade. [1]
  • A produtividade com IA ainda é difícil de medir. O METR mudou o desenho do estudo em 2026 porque muitos desenvolvedores já recusam trabalhar sem IA. [8]

Para fechar

Que conselho você daria a quem trabalha com TI hoje?

Investir menos em colecionar selos e mais em construir um histórico de entregas que fale por si. O que substitui o certificado é mais exigente: capacidade de resolver problemas reais, de questionar processos e de usar a IA com critério.

A IA não decreta o fim da TI. Decreta o fim da TI que só executa, e abre espaço para uma TI que pensa, decide e transforma.

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Referências

  1. Brynjolfsson, E.; Chandar, B.; Chen, R., “Canaries in the Coal Mine? Six Facts about the Recent Employment Effects of Artificial Intelligence”, Stanford Digital Economy Lab, revisão de agosto de 2026, digitaleconomy.stanford.edu (PDF de 2026; PDF de 2025).
  2. Burning Glass Institute e OneTen, “Credential Fluency: The Hiring Advantage in the Race for Skills”, resumo por Brian Heger, março de 2026, brianheger.com.
  3. Dice, “Pay for IT Skills, Certifications on the Decline”, outubro de 2025, dice.com.
  4. Foote Partners, “IT Skills and Certifications Pay Index”, 2º trimestre de 2026, abril de 2026, PDF.
  5. Fortinet, “Cybersecurity Skills Gap Report 2025”, fortinet.com.
  6. Gartner, “Generative AI will Require 80% of Engineering Workforce to Upskill Through 2027”, outubro de 2024, gartner.com.
  7. METR, “Measuring the Impact of Early-2025 AI on Experienced Open-Source Developer Productivity”, julho de 2025, metr.org.
  8. METR, “We are Changing our Developer Productivity Experiment Design”, fevereiro de 2026, metr.org.
  9. Network World, “AI certifications outpace non-certified AI skills in pay growth”, outubro de 2025, networkworld.com.
  10. Network World, “IT certification pay surges as noncertified skills slump”, abril de 2026, networkworld.com.
  11. World Economic Forum, “Future of Jobs Report 2025”, janeiro de 2025, weforum.org.
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