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Orçamento base zero na TI

Em vez de perguntar quanto a mais gastar no ano que vem, perguntar por que gastar cada real: como o orçamento base zero muda a gestão financeira de uma área de TI.

O que é orçamento

Orçamento é a tradução da estratégia em números. É um plano financeiro para um período, normalmente um ano, que diz quanto a organização espera receber, quanto pretende gastar e em quê. Quando a estratégia diz “vamos crescer no digital”, é o orçamento que mostra se isso vai acontecer de fato ou se é só uma frase.

Mais do que uma planilha, o orçamento cumpre quatro funções:

  • Planejar: obriga a pensar antes em prioridades, riscos e premissas, como câmbio, reajuste de contratos e crescimento do número de usuários.
  • Alocar: distribui um recurso escasso entre usos que competem entre si. Todo real aprovado para uma coisa deixa de estar disponível para outra.
  • Coordenar: alinha áreas diferentes em torno dos mesmos números. A TI, o financeiro e o negócio passam a discutir a mesma base.
  • Controlar: cria a referência para comparar o orçado com o realizado e agir quando os dois se afastam.

Na TI, o orçamento costuma se dividir em dois grandes grupos:

GrupoO que incluiExemplos na TI
OPEX (despesas operacionais)Gastos recorrentes para manter a operação funcionandoAssinaturas SaaS, consumo de nuvem, suporte e manutenção de licenças, contratos de terceiros, telecom, salários da equipe
CAPEX (investimentos)Gastos em ativos que geram benefício por vários anos e são depreciados ou amortizadosServidores e notebooks, licenças perpétuas, desenvolvimento de sistemas que pode ser capitalizado, projetos de implantação

A migração para nuvem e SaaS vem deslocando o gasto de TI do CAPEX para o OPEX. O resultado é um orçamento mais flexível, mas também mais fácil de crescer sem que ninguém perceba: uma assinatura a mais aqui, uma máquina virtual esquecida ali.

Tipos de orçamento

Não existe um único jeito de orçar. Cada tipo parte de uma pergunta diferente e serve melhor a uma situação diferente:

TipoComo funcionaQuando faz sentidoPrincipal risco
IncrementalParte do orçamento ou do realizado do ano anterior e aplica um ajuste percentual.Ambientes estáveis, com pouco tempo para planejar.Perpetua ineficiências e estimula o “gaste ou perca”.
Base zero (OBZ)Todo gasto precisa ser justificado desde o zero a cada ciclo, como se não existisse.Custos crescendo mais que o negócio, reestruturações, fusões.Esforço alto e burocracia, se aplicado sem foco.
Por atividades (ABB)Parte das atividades necessárias e dos seus direcionadores de custo, como chamados ou transações.Serviços com volume mensurável, como service desk e operação.Exige um modelo de custos maduro.
Por programas e projetosAloca recursos a objetivos e programas, e não a departamentos.Portfólio de projetos e iniciativas de transformação.Esquecer o custo de sustentação depois que o projeto termina.
FlexívelOs valores variam com o volume real, por exemplo custo por usuário ou por transação.Nuvem e licenças cobradas por usuário.Metas que se ajustam sozinhas e perdem o poder de controle.
Contínuo (rolling forecast)É revisto a cada trimestre, sempre com um horizonte de 12 meses à frente.Mercados voláteis e prioridades que mudam rápido.Virar só previsão, sem compromisso com metas.

Há ainda quem proponha abandonar o orçamento anual fixo. O movimento Beyond Budgeting, de Jeremy Hope e Robin Fraser, defende metas relativas, previsões contínuas e alocação de recursos sob demanda. [5]

Na prática, os tipos se combinam. Uma TI pode usar o OBZ para revisar o OPEX a cada dois ou três anos, o orçamento por programas para o portfólio de projetos e um rolling forecast trimestral para acompanhar tudo.

O que é orçamento base zero e suas origens

O orçamento base zero (OBZ, ou zero-based budgeting, ZBB) é um método em que cada gasto precisa ser justificado a partir do zero, a cada ciclo. O ponto de partida não é o valor do ano anterior: nenhuma despesa está garantida só porque já existia. [3]

Se esta atividade não existisse hoje, nós a criaríamos? Se sim, com que tamanho e de que forma?

O método se apoia em quatro conceitos, definidos por Peter Pyhrr [1] [2]:

  • Unidade de decisão: a menor parte da organização para a qual faz sentido orçar e decidir. Pode ser um departamento, um serviço ou um projeto.
  • Pacote de decisão: o documento que descreve o que a unidade faz, por que faz, quanto custa, quais alternativas foram avaliadas e o que acontece se deixar de fazer.
  • Níveis de esforço: cada pacote é dividido em camadas. O nível mínimo é o que mantém a atividade viva; os níveis seguintes acrescentam serviço, qualidade ou alcance.
  • Ranqueamento: todos os pacotes, de todas as unidades, são ordenados por prioridade. Os recursos vão sendo alocados de cima para baixo até acabar o dinheiro, na chamada linha de corte.

Origens

  1. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos tenta montar um orçamento a partir do zero. A experiência gera muito papel e pouca mudança, e é abandonada.
  2. Peter A. Pyhrr, então na Texas Instruments, desenvolve o método para as áreas de apoio e de pesquisa da empresa e o publica na Harvard Business Review. [1]
  3. Pyhrr lança o livro Zero-Base Budgeting. Jimmy Carter, governador da Geórgia, leva o método para o orçamento do estado. [2]
  4. Já presidente, Carter determina o uso do OBZ em todo o governo federal americano. [4] O volume de papel e a resistência das agências fazem o método ser abandonado no início dos anos 1980.
  5. O OBZ volta com força pelas mãos dos executivos brasileiros da 3G Capital, que levam a disciplina de custos da Ambev para Burger King, Heinz e Kraft. [8]

A história também traz um alerta. Em 2019, a Kraft Heinz registrou uma baixa contábil de cerca de 15 bilhões de dólares no valor das suas marcas, e parte dos analistas atribuiu o problema a anos de cortes que atingiram também o investimento em inovação e marketing. O OBZ é uma ferramenta para gastar melhor, não apenas para gastar menos.

Mudança dos processos tradicionais de orçamentação para o orçamento base zero

A diferença entre os dois modelos não está só na planilha, está no processo. No orçamento tradicional, o histórico é a base e a discussão gira em torno do acréscimo. No OBZ, a base é zerada e a discussão gira em torno do valor de cada atividade.

Orçamento tradicional

  1. Históricorealizado do ano anterior
  2. Ajuste+ inflação ou % de crescimento
  3. Negociaçãopor conta contábil
  4. Aprovaçãocorte linear se não couber

Orçamento base zero

  1. Unidades de decisãoserviços e atividades
  2. Pacotes de decisãoníveis e alternativas
  3. Ranqueamentocom o negócio
  4. Linha de corteaté o limite disponível
  5. Acompanhamentoorçado × realizado
AspectoTradicional (incremental)Base zero
Ponto de partidaO valor do ano anteriorZero
Pergunta centralQuanto a mais precisamos?Por que gastar, quanto e de que forma?
Ônus da provaDe quem quer cortarDe quem quer gastar
Unidade de análiseConta contábil e centro de custoAtividade, serviço e pacote de decisão
O que é discutidoSó o acréscimoTodo o gasto
Como se cortaPercentual igual para todosAbaixo da linha de corte, por prioridade
EsforçoBaixoAlto, principalmente no primeiro ciclo
Comportamento que estimulaGastar tudo até dezembro para não perder a verbaEntender o custo de cada atividade e agir como dono

A mudança mais difícil é cultural. No modelo tradicional, o gestor aprende a defender o que já tem: pede um pouco a mais sabendo que haverá corte, e garante que a verba seja toda consumida até dezembro, porque sobra vira redução no ano seguinte. No OBZ, o gestor passa a justificar o que precisa, com alternativas e consequências. Isso exige que o financeiro e o negócio participem das decisões, e que a TI conheça os próprios custos com um nível de detalhe que muitas áreas não têm.

Como implantar e controlar de forma efetiva dentro de uma TI

Passo a passo da implantação

  1. Garanta patrocínio e defina o escopo. O OBZ precisa do CIO e do CFO juntos. Comece pelo OPEX, onde o gasto recorrente se acumula sem revisão. Não é preciso passar tudo pelo OBZ todo ano: um rodízio em que cada serviço é revisto a cada dois ou três anos reduz o esforço.
  2. Dê visibilidade aos custos. Monte o inventário de contratos, licenças, assinaturas SaaS, recursos de nuvem, pessoas e terceiros. Use uma taxonomia comum, como a do Technology Business Management (TBM), para ligar cada custo a um serviço. [6]
  3. Defina as unidades de decisão por serviço. Organize por aquilo que a TI entrega, e não pelo plano de contas: ERP, colaboração, infraestrutura e nuvem, service desk, segurança, dados e projetos.
  4. Monte os pacotes de decisão. Para cada unidade, descreva o objetivo, as alternativas avaliadas, os níveis mínimo, atual e incremental, o custo de cada nível e o risco de não fazer. Classifique cada pacote como manter, crescer ou transformar o negócio.
  5. Ranqueie junto com o negócio. Use critérios explícitos: obrigação legal, risco de segurança, valor para o negócio e custo evitado. As áreas de negócio devem estar na mesa, porque são elas que sentem o que fica abaixo da linha de corte.
  6. Transforme o ranqueamento em orçamento. Aprove os pacotes acima da linha de corte e registre as premissas: câmbio, reajuste de contratos por IGP-M ou IPCA, crescimento de usuários e datas de renovação.
  7. Controle e revise continuamente. O OBZ não termina na aprovação. O acompanhamento mensal e a revisão trimestral mantêm o orçamento vivo, como mostra a seção de controle a seguir.

Exemplo de pacote de decisão: service desk

Alternativas avaliadas antes dos níveis: manter o atendimento interno, terceirizar o primeiro nível ou ampliar o autoatendimento com base de conhecimento e agente de IA. A alternativa escolhida foi manter o atendimento interno com mais autoatendimento, e ela foi detalhada em três níveis:

  • Mínimo8 analistas, atendimento em horário comercial, prazo de solução de 8 horas para incidentes comuns.R$ 0,8 mi/ano
  • Atual10 analistas, atendimento das 7h às 22h, prazo de solução de 4 horas.+ R$ 0,2 mi (R$ 1,0 mi)
  • Incremental12 analistas, atendimento 24×7, prazo de solução de 2 horas.+ R$ 0,3 mi (R$ 1,3 mi)

Exemplo de ranqueamento e linha de corte

Com um orçamento disponível de R$ 10,0 milhões, os pacotes de todas as unidades são ordenados e financiados de cima para baixo:

#PacoteNívelCusto (R$ mi)Acumulado (R$ mi)
1Segurança da informação e complianceMínimo1,21,2
2Sustentação do ERPMínimo2,53,7
3Infraestrutura e nuvem de produçãoMínimo2,15,8
4Service deskMínimo0,86,6
5Evoluções do ERPAtual1,48,0
6Service deskAtual0,28,2
7Plataforma de dados e BIIncremental1,39,5
Linha de corte: orçamento disponível de R$ 10,0 mi
8Renovação antecipada de notebooksIncremental0,910,4
9Service desk 24×7Incremental0,310,7
10Ambiente de homologação dedicadoIncremental0,611,3

Os R$ 0,5 milhão que sobram acima da linha não compram o pacote 8 inteiro. Ou ele é redesenhado, por exemplo renovando só os notebooks mais antigos, ou o valor vira reserva. A decisão fica explícita, com nome e consequência, em vez de um corte linear de 10% em todas as contas.

Onde procurar: alavancas por categoria de custo

CategoriaPergunta base zeroAlavancas típicas
Licenças de softwareQuantas licenças usamos de fato?Eliminar licenças compradas e não usadas, ajustar edições ao uso real, rever o suporte de produtos em fim de vida.
Assinaturas SaaSQuem usou no último trimestre?Remover usuários inativos, consolidar ferramentas que fazem a mesma coisa, negociar pelo volume do grupo.
NuvemEste recurso precisa existir, e neste tamanho?Ajustar o tamanho das máquinas, usar reservas e planos de economia, desligar ambientes não produtivos fora do horário, exigir tags de custo.
Terceiros e fábricas de softwarePagamos por horas ou por resultado?Contratos por entrega, níveis de serviço com penalidade, revisão do escopo de sustentação.
Infraestrutura e hardwareQual é o ciclo de vida certo?Ciclo de renovação por perfil de usuário, padronização de modelos, venda de equipamentos usados.
TelecomOs links e as linhas ainda são usados?Cancelar linhas ociosas, renegociar links, consolidar operadoras.
ProjetosO caso de negócio ainda se sustenta?Financiar por etapa, com pontos de decisão para seguir, ajustar ou encerrar.

Como controlar

  • Orçado × realizado por unidade de decisão. Acompanhe mensalmente por serviço, e não só por conta contábil, e exija explicação para variações acima de um limite combinado, por exemplo 5%.
  • FinOps para a nuvem. O gasto em nuvem muda todo dia e não espera o fechamento do mês. Use showback ou chargeback por área, alertas de anomalia e uma revisão semanal entre TI, financeiro e times de produto. [7]
  • Rolling forecast trimestral. Reavalie os pacotes abaixo da linha de corte quando surgir folga, e rebaixe os que perderam prioridade. O ranqueamento é uma fila viva, não uma decisão anual.
  • Reinvista parte da economia. Se toda economia vira corte no ano seguinte, as áreas aprendem a não economizar. Goldratt resumiu: “Puna as pessoas por suas melhorias e o processo de melhoria contínua vai parar de vez.” Combine antes que uma parte do que for economizado volta para a própria TI, em projetos de transformação.

Indicadores

IndicadorO que mostra
% manter × crescer × transformarQuanto do orçamento só mantém a operação e quanto muda o negócio. A economia do OBZ deve aparecer como migração do primeiro grupo para os outros dois.
Custo por serviço e por usuárioA eficiência de cada serviço ao longo do tempo, e uma base para comparar com o mercado.
Variação orçado × realizadoA qualidade do planejamento e das premissas.
Licenças e assinaturas ociosasQuanto se paga por software que ninguém usa.
Cobertura de tags na nuvemQuanto do gasto em nuvem tem dono e serviço identificados.
Economia reinvestidaSe o OBZ está financiando a transformação ou apenas reduzindo custo.

Armadilhas comuns

  • OBZ como corte linear disfarçado. Se o resultado já estava decidido antes dos pacotes, as áreas percebem, e o processo vira teatro.
  • Cortar o que não aparece. Segurança, atualização de versões e débito técnico raramente ganham um ranqueamento contra projetos visíveis. O custo volta depois, como incidente ou como projeto emergencial.
  • Burocracia demais. Pacotes longos e detalhados para gastos pequenos matam o método. Concentre o esforço nos itens que respondem pela maior parte do gasto.
  • Fazer uma vez e esquecer. Sem acompanhamento, o gasto volta ao patamar anterior em um ou dois anos.
  • Ranqueamento político. Sem critérios explícitos, vence quem fala mais alto, e não o que gera mais valor.

Conclusões

O orçamento base zero troca a pergunta “quanto a mais?” por “por que, quanto e de que forma?”. Na TI, onde contratos, licenças e recursos de nuvem se acumulam ano após ano sem revisão, essa troca costuma revelar gastos que ninguém escolheria de novo.

O método tem custo: exige conhecer os próprios gastos por serviço, envolver o negócio nas decisões e manter o acompanhamento depois da aprovação. Por isso funciona melhor aplicado com foco, começando pelo OPEX e revisando cada serviço em rodízio, e combinado com um rolling forecast e com práticas de FinOps.

O maior risco é confundir OBZ com cortar custos. Usado assim, ele sacrifica segurança, inovação e débito técnico, e o custo volta mais caro. Usado como deve, ele libera recursos do que só mantém a operação para o que transforma o negócio, e ensina a TI a gastar como dona.

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Referências

  1. Pyhrr, Peter A., "Zero-Base Budgeting", Harvard Business Review, novembro-dezembro de 1970.
  2. Pyhrr, Peter A., Zero-Base Budgeting: A Practical Management Tool for Evaluating Expenses, John Wiley & Sons, 1973.
  3. Wikipedia, "Zero-based budgeting", acesso em 24/09/2026, en.wikipedia.org/wiki/Zero-based_budgeting.
  4. Carter, Jimmy, "Zero-Base Budgeting", memorando aos dirigentes dos departamentos e agências do Executivo, 14/02/1977, The American Presidency Project.
  5. Hope, Jeremy; Fraser, Robin, Beyond Budgeting: How Managers Can Break Free from the Annual Performance Trap, Harvard Business School Press, 2003.
  6. TBM Council, TBM Taxonomy, acesso em 24/09/2026, tbmcouncil.org.
  7. FinOps Foundation, FinOps Framework, acesso em 24/09/2026, finops.org/framework.
  8. Correa, Cristiane, Sonho Grande: como Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira revolucionaram o capitalismo brasileiro e conquistaram o mundo, Primeira Pessoa, 2013.
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